O grande momento de Cecilia Suárez

Seu nome evoca uma trajetória primorosa. Também nos remete à atual fase áurea do cinema, do teatro e das minisséries feitas no México.

PALAVRAS Alejandro Mancilla  
Dezembro 2018
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“Sem canudinho, por favor”, pede Cecilia Suárez à garota que serve sua bebida: um suco de fruta artesanal, enfeitado com um morango na borda. A atriz está esplêndida. Depois do meio-dia e terminada a sessão de fotos, nos encontramos na varanda do hotel Downtown Mexico, no Centro Histórico da Cidade do México. Olhamos a rua e sentimos a pulsação da cidade. Lá embaixo, nas calçadas, transeuntes passam entre vitrines, pelo Cassino Espanhol e pelas lojas de tecidos que sobrevivem ao futuro e povoam a pai­sagem com cores, sons e sabores.

“Descemos ao lobby?” ela sugere. No elevador, me confessa algo: está morta de fome. Ao longe, o realejo de um ambulante nos oferece um fundo musical que bem nos poderia transportar ao passado. Mas ela não olha para trás assim, sem mais nem menos. Sabe que sua estrela hoje brilha graças ao furor desencadeado por A Casa das Flores — a minissérie do Netflix dirigida por Manolo Caro — em que sua personagem, Paulina de la Mora, tornou-se um ícone pop.

“Fala como Paulina de la Mora!,” costumam lhe dizer. “Meus amigos não, porque são respeitosos”, esclarece (nós não nos atrevemos a fazê-lo, embora quiséssemos). 

Durante algum tempo, correu o rumor de que havia uma cláusula do Netflix que a proibia expres­samente de falar com o tom de voz ca-rac-te-rís-ti-co dos sets. Hoje, ela esclarece a dúvida: “Foi apenas uma recomendação que agradeço, porque zela pelo personagem e por sua magia dentro da história. E, sim, as pessoas me pedem o tempo todo para falar como Paulina”. Teve o contrato renovado na minissérie — onde divide os créditos com Verónica Castro e Aislinn Derbez — por mais duas temporadas.

Enquanto esperamos o início da filmagem em 2019, veremos Suárez no filme Perfectos Desconocidos —que estreia dia 25 de dezembro no México e dia 11 de janeiro nos Estados Unidos — novamente dirigida por Caro e ao lado de Mariana Treviño e Ana Claudia Talancón. Na história, que acontece no meio de um eclipse e de um jantar que revela segredos proibidos, Cecilia interpreta uma mulher um tanto maquiavélica.

“Você realmente a vê assim? Acho interessante como você a percebe, porque acho que ela tinha todas as razões para agir daquela forma, e não consigo julgá-la”, afirma. Sejam boas ou más as personagens, “meu trabalho é justificá-las. A empatia é minha ferramenta mais poderosa como atriz”, diz ela com convicção.

 

Uma Infância Feliz

Suárez nasceu num 22 de novembro em Tampico, Estado de Tamaulipas, uma cidade portuária no nordeste do México onde coexistem mar, rios e lagos. “É uma região que nos obriga a estarmos em contato com a natureza, a sairmos e ficarmos muito tempo na rua”, diz. “Sinto orgulho de ter nascido lá. É uma comunidade da qual ainda me sinto parte e onde conservo amigas desde os quatro anos de idade”. Cecilia teve uma infância feliz, mas nunca lhe passou pela cabeça ser atriz e, de fato, não havia sequer um teatro [perto] quando era criança.

“Nunca brinquei de ser atriz, que tédio”, enfatiza. “Meus pais sabiam que a infância é um tesouro que precisa ser prolongado e respeitado”.

O desejo de atuar a encontrou longe, na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Primeiro considerou estudar direito; no final, optou pelo teatro.

Sexo, Pudor e Lágrimas— que está prestes a completar vinte anos e é um dos filmes de maior bilheteria do cinema mexicano — foi seu primeiro êxito. Cecilia sorri e abre bem seus expressivos olhos quando se lembra: “Foi um momento especial e emocionante em minha vida; apenas boas recordações do filme com o qual comecei a fazer parte do cinema do meu país”, diz ela. Mais tarde, vieram Todo o Poder(2000) e Punhos Rosas(2004), e ela inclusive aterrissou em Hollywood ao lado de Kevin Bacon e Andy García (Ligados pelo Crime, 2007).

Quanto às novelas, fez algumas no começo. “Descobri que não era o que me motivava, não queria isso como atriz”, conta. Por outro lado, a essência de Suárez está no trabalho em filmes e minisséries eminentemente mexicanos em termos de tema e lugar, como a minissérie Capadócia (que lhe rendeu uma indicação ao Emmy Internacional) e o filme A Vida Imoral do Casal Ideal (2016), dirigido por Caro, de quem se diz ser a musa mais pontual.

“Conheci Cecilia quando eu tinha 14 anos, no final dos anos 90 em Guadalajara”, diz o diretor. “Fui atraído pela beleza dela e pelo magnetismo que exala como atriz e como ser humano”, comenta.

 

Uma artista atuante

As personagens que Suárez interpreta têm grande caráter. Nisso elas se parecem com a atriz. Recentemente, ela respondeu ao chamado da União Europeia e da ONU para fazer parte da iniciativa Spotlight, que busca erradicar a violência contra mulheres e meninas. Foi nomeada Embaixadora Global contra o feminicídio e, em setembro, fez um discurso chamado “Farta” na sede da ONU, em Nova Iorque.

Suárez é conhecida como uma artista atuante que denuncia injustiças em seu país.

“Sua coerência é uma qualidade belíssima, mas lhe trouxe tanto os maiores sucessos quanto os maiores infortúnios, porque as pessoas não estão acostumadas à franqueza de quem lhes fale diretamente o que pensa”, diz Caro.

Ao mesmo tempo, o sentimento de fazer parte que Suárez possui em relação ao México é notável. “O México do qual me orgulho é o da solidariedade, da gastronomia, da bondade das pessoas. O povo que se levanta diariamente e vai trabalhar para que o país mude. Esses são meus heróis”, afirma.

Tal e qual seus “heróis”, Suárez está comprometida com o país. Em entrevista ao jornalista Jorge Ramos em 2017, explicou por que decidiu fazer carreira no México.

“A mim parecia-me que os me­­lhores papeis seriam escritos no meu país e em espanhol. Eu não queria contar a versão que a cultura norte-americana entende como sendo a nossa”, disse.

 

Esforço reconhecido

Em outubro, ela se tornou a primeira mulher a receber o Prêmio Cuervo Tradicional, concedido pela indústria cinematográfica mexicana. “É uma grande honra, mas não posso deixar de pensar que demoraram muito tempo para reconhecer o trabalho das mulheres no nosso cinema. Espero que as novas gerações não tenham de esperar tanto tempo”, diz a atriz.

Suárez não gosta de dizer que é camaleônica (“não, não sei, não cabe a mim dizer isso”, afirma a esse respeito), mas a verdade é que ela transita de forma convincente entre o drama e a comédia, e admite que “acharia terrível se ficasse sempre no mesmo tipo de personagem”.

O que a sensibiliza, acrescenta, é a própria vida, e não falta um bom filme que a faça chorar. “Meu filho — Teo de León, que está com oito anos — fica impressionado quando isso acontece. Ele ri de mim e me chama de escandalosa!”

“Não gosto de ficar parada. É irreal. Não há nada mais constante do que a impermanência”, finaliza, enquanto começa a notar os churros tradicionais com sorvete que acabam de chegar à mesa. “É sempre um desafio entrevistá-la”, eu não podia deixar de lhe dizer.

“Olha, mas não é de propósito...”, esclarece com um de seus sorrisos encantadores. Hora das despedidas. Alguns fãs que já haviam notado a sua presença parecem se animar a pedir uma foto de Suárez. Se o       fizerem, espero que não lhe digam: “Vamos lá, fale como Paulina de la Mora”. O-xa-lá.

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