Rosa Salazar: A Guerreira

Rosa Salazar, Estrela de Alita: Battle Angel, luta dentro e fora da tela

PALAVRAS Verónica Villafalle
Janeiro 2019
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O ruído dos sapatos nas escadas cessa, e Rosa Bianca Salazar aparece, quase sem fôlego. “Estou pronta!”, exclama, com um sorriso e um suspiro. A atriz passou a maior parte do dia posando com roupas glamorosas para uma sessão de fotos em Santa Mônica, Califórnia, com o oceano e um lindo dia quente e ensolarado como pano de fundo.

Agora prendeu os cabelos curtos e veste confortáveis calças quadriculadas, uma camiseta branca amarrada com um nó que expõe a barriga e a figura esbelta, e chinelos. “Este look tem mais a ver comigo”, afirma.

“Quem é Rosa Salazar?” Eis a pergunta que muitas pessoas fazem desde que foi divulgado que a energética atriz norte-americana de 33 anos seria a estrela de Alita: Battle Angel, superprodução de mais de US$ 200 milhões que estreia em fevereiro. O filme de ficção científica baseado em um popular mangá (palavra japonesa para a arte em quadrinhos) japonês de Yukito Kishiro tem como produtores James Cameron e Jon Landau (Titanic e Avatar) e Robert Rodríguez (Desperado e Sin City) na direção.

Em seu papel mais importante até hoje, Salazar interpreta uma heroína ciborgue com cérebro humano resgatada de um depósito de lixo, sem memória de quem é. Enquanto aprende a navegar a nova vida, ela descobre que tem ha­­bilidades únicas.

“Quando fiz o teste, pensei: essa é a minha história...

A garota que encontram no lixo sente-se insignificante e percebe, por meio da autorreflexão, que não é”, diz Salazar. “Na verdade, é uma pessoa muito importante com o poder de mudar tudo para todos. Senti cone­xão com ela. Eu a entendi. Identifico-me com sua vulnerabilidade, com a sensação de não saber quem você é, especialmente quando se é jovem e há aquela sensação de estar numa pele alheia”, acrescenta. Embora Salazar esteja vivendo o momento mais espetacular da carreira, chegar até aqui foi tão dramático quanto qualquer um de seus filmes.

Uma infância difícil

A atriz nasceu em Washington, D.C., filha de um imigrante peruano e uma norte-americana. Recebeu o nome de Rosa em homenagem a Rosa Luxemburgo, filósofa polonesa e ativista política do início do século XX que disse a famosa frase: “Se não nos mexemos, não sentimos nossas correntes”.

“Em meu nome há uma ati­vista, uma guerreira”,

enfatiza Salazar, que desde menina adorava representar e entreter.

“No começo, minha mãe me apoiou. Ela me pôs a estudar balé. Eu tinha tanta energia, dançava, fazia ginástica, representava, tocava violino, frequentava a aula de artes cênicas”, lembra a atriz. “Eu precisava atuar. Era a pa­­lhaça da classe”. Seu caráter extrovertido era complementado por uma imaginação fértil. “Era uma loba solitária. Ia numa aventura para um riacho, entrava em casas abandonadas, inventava aventuras imaginárias, escrevia poesia e tinha rochas como mascotes”.

Seu admirador mais devotado foi o pai, que deixou seu país para trás para sonhar com uma vida melhor nos Estados Unidos. Ele foi o “herói” de Rosa, o primeiro a lhe dizer que ela possuía algo “especial”.

“Quando meus pais se divorciaram, minha mãe me abandonou. Ela me entregou a um lar adotivo temporário, quando eu era pré-adolescente”, lembra com tristeza. “Fui emancipada aos 15 anos.  Tornei-me adulta”. Salazar, contudo, manteve contato com o pai até a morte dele em 2012. “Ele me enviava dinheiro quando podia e me visitava. Acreditava em mim e me apoiava o máximo que podia. Pela maneira como ele acreditava em mim, eu sabia que poderia chegar lá”. Até hoje, Salazar leva a assinatura do pai, Luis Santiago Salazar,  tatuada nas costas. “É uma homenagem a ele. Representa o quanto amei o meu pai”.

De nômade a Hollywood

Depois de terminar o ensino médio, sem di­­nheiro ou alguém que a guiasse, Salazar descobriu que não seria possível frequentar uma universidade. Durante dois anos, foi nômade, visitando amigos pelos Estados Unidos. “Encontrei situações interessantes. Esses dois anos foram a melhor educação para representar, conhecer gente, aprender seu comportamento idiossincrático e conhecer novas histórias e personagens”, comenta. “Isso é o que fazemos
como atores, assumimos as personalidades de outras pessoas”.

Com grandes ambições, ela mudou-se para Nova Iorque aos 19 anos e estudou interpretação à noite no renomado Herbert Berghof Studio, enquanto batalhava em três empregos: barista, garçonete e mensageira de bicicleta. “Foi uma época mágica, porque eu ensai­ava os primeiros passos para me tornar atriz”, diz Salazar.

Começou fazendo comédia standup e vídeos de paródia antes de se mudar para Los Angeles, onde conseguiu a primeira grande oportunidade em 2011-2012 com 13 episódios da série Parenthood. “Não podia acreditar. Eles estavam me vali­dando como atriz. Pagavam-me para estar na TV com atores incríveis e, ao mesmo tempo, fui selecionada para um papel em quatro episódios na American Horror Story: Murder House”.
A série recebeu 17 indicações ao Emmy.

E também se aventurou em videogames, onde fez a voz de Copperhead em Batman: Arkham Origins.

Deu o pulo ao cinema interpretando perso­nagens fortes e aventureiros em histórias de fantasia futurista: The Divergent Series: Insurgent, Maze Runner: The Trials Scorch e a continuação Maze Runner: The Death Cure. Foram papéis e situações que a prepararam para Alita.

Salazar treinou artes marciais por cinco meses antes da filmagem para resistir à intensidade do esforço físico requerido pelas sequências de ação, às vezes até 17 horas de rodagens diárias. Na maior parte do tempo, ela estava pendurada por fios com uma roupa de captura de movimento que transferia seus movimentos e expressões digitalmente para compor imagens tridimensionais da personagem.

“O que eu gosto nas artes marciais é o nível de determinação que me deram para superar qualquer coisa”, diz Salazar, para quem hoje o “dojo”, como é chamado o espaço de treinamento de artes marciais, é uma parte 

indispensável em sua rotina. “Ensinaram-me a encontrar minha guerreira interior, a lidar com a raiva que tenho dos meus traumas e a usá-la no momento certo; a me acalmar, a abrir minha mente e seguir em frente”.

Adeus à menina insignificante

Estar ao lado de Robert Rodríguez, diz, foi parte essencial de todo o processo. “Para começar, é trabalhar com um diretor latino quando você é latina, é a protagonista e tem uma voz. Robert ouvia o que eu dizia e o que eu propunha. Nunca me ignorou. Éramos colaboradores. Ele me empoderou como mu­­lher e latina e, pela primeira vez em toda a minha carreira, senti-me como alguém importante neste negócio”.

Salazar está entusiasmada com o presente e o futuro. Além das grandes expectativas em torno de Alita, em breve representará o papel principal na série dramática animada Undone, que estreia na Amazon em 2019. Também aparece em dois novos filmes da Netflix: Bird Box, estrelado por Sandra Bullock, e The Kindergarten Teacher, ao lado de Maggie Gyllenhaal e Gael García Bernal, seu amor platônico.

“São poucas cenas, mas tinha de fazer o filme com Gael... Fui apaixonada por ele durante anos”, diz emocionada. “Ele é uma pessoa bonita, um ator fenomenal que escolhe filmes extraordinários que refletem quem ele é... Eu também preciso fazer escolhas que reflitam quem sou como artista e pessoa”.

“Sinto que tudo está mudando ao meu redor”, acrescenta.

“Estou pronta para entrar na minha luz. Já não me vejo como uma menina insignificante”.

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