A adorada Málaga de Antonio Banderas

O retorno à terra natal, armado com sonhos e um novo teatro.

PALAVRAS Judy Cantor-Navas
Janeiro 2020
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Dançando em um smoking de cetim e com uma cartola dourada, Antonio Banderas comemorou o espetacular retorno à cidade natal: Málaga. Foi no palco, como parte do elenco musical de A Chorus Line, que Banderas participou da recente inauguração do Teatro del Soho CaixaBank, um projeto que ele mesmo iniciou e do qual será o mecenas, além de ator e diretor.

O teatro malaguenho, cuja programação regu­lar começou em fevereiro, depois que Banderas concluiu sua temporada no papel de Zach, foi o contexto de nossa visita a Banderas na cidade dele.


Antonio Banderas em A Chorus Line.

“Damos voltas pelo mundo, temos mil aventuras e conhecemos um montão de gente, mas de repente a terra te chama... a tua terra”, reflete Banderas, que há anos queria liderar um projeto em Málaga. “E você pode fazer coisas aqui, por que não?” destaca.

Aos 59 anos, o espanhol está no auge da carreira com o sucesso do aclamado papel no filme Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, pelo qual recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes em 2019; e também o de melhor ator da Europa na 32ª edição da Academia de Cinema Europeu (EFA).

“Málaga é aberta, hospitaleira, divertida e tem um sotaque muito especial”, diz Banderas sobre a cidade que deixou em 1980 para tentar a sorte como ator. “E é uma cidade de cultura”, enfatiza.


Localizada na Costa del Sol, na Andaluzia, Málaga tem 38 museus.

Muito Mais Humana

Localizada na Costa do Sol, na Andaluzia, Málaga recebe milhares de turistas através do trem AVE de alta velocidade, de Madri ou Barcelona, ou por via aérea. À primeira vista, é um cartão postal de palmeiras e praias, onde um dos longos quebra-mares se chama Passeio Marítimo Antonio Banderas.

O que é menos esperado é que tenha 38 museus. A oferta inclui o Museu Picasso (museopicassomalaga.org) e a casa onde nasceu o pintor, a primeira sede internacional do Centre Pompidou (centrepompidou-malaga.eu), o Thyssen (carmenthyssenmalaga.org) e a coleção do Museu de São Petersburgo. Agora, aumenta a oferta teatral com o Soho, no bairro do mesmo nome.

É parte de uma evolução. Durante os últimos 20 anos, o prefeito de Málaga, Francisco de la Torre, foi encarregado de transformá-la de um lugar industrial em decadência em uma das cidades mais movimentadas e habitáveis da Espanha.

“Tornou-se uma cidade muito mais humana”, diz Banderas. “É uma cidade de pedestres, de pessoas que se cruzam nas ruas. Ainda tem aquele caráter de vilarejo que adoro e que contrasta com outros lugares da Costa del Sol.”

“Málaga é uma cidade muito costeira”, acrescenta. “Recebeu muitas culturas ao longo da história: fenícios, cartagineses, gregos, três séculos de romanos, árabes, e isso está na personalidade da terra. Aqui existe gente de dife­rentes raças, de diferentes culturas, o que é algo genético na própria cidade.”

A Magia do Teatro

Foi após um enfarte em 2017 que Banderas sentiu a urgência de cumprir o que ele ca­racteriza como o fim de sua viagem homérica. “Porque descobri que morrer é realmente algo que vai acontecer.” Era o momento de voltar e investir em Málaga.

Seu apartamento, uma de suas residências internacionais que divide com a namorada holandesa Nicole Kempel, tem vista para o Alcazaba, o castelo-fortaleza muçulmano que vigia toda a cidade. Também se vê o Pimpi, o bar emblemático onde, diz Banderas, levava suas primeiras namoradas. Agora ele é um dos donos do bar e restaurante de cozinha andaluza.

Quando era criança, sua família morava não muito longe dali. “Era um sótão muito bonito, com uma varanda enorme. Eu cresci brincando com meu irmão naquela varanda”. O irmão, Javier, economista e campeão de vela, agora dirige a administração do Teatro del Soho.

Os meninos foram apresentados à magia do teatro pelo pai, que trabalhava como Guarda Civil na época de Franco. Como um bom amante de teatro, levava os filhos aos espetáculos.


O passeio marítimo que leva o nome de Antonio Banderas.

O Medo de Uma Mãe

“Não foi meu pai quem mais se opôs à minha carreira”, revela. “Foi minha mãe, que era professora. Ela tinha medo da vida insegura dos atores. Preferia uma profissão muito mais segura.”

No entanto, Banderas estudou na Escola Superior de Arte Dramática de Málaga e formou um grupo de teatro. “Não se ganhava di­­nheiro, se perdia”, comenta. “Era tudo incrivelmente amador. Deixei Málaga e fui para Madri, em busca de profissionalismo.”

Uma tarde, no famoso Café Gijón, em Madri, “chegou um rapaz com uma mala vermelha, muito engraçado e muito rápido de cabeça”, lembra Banderas. “Eu ri muito durante 20 minutos de um monólogo que foi lançado lá, e, quando ele estava saindo, me disse: ‘Você deveria fazer ci­nema, porque tem um rosto muito romântico’...”.

Duas semanas depois, o rapaz, que era Pedro Almodóvar, o recrutou para seu filme Labirinto de paixões, a estreia do malaguenho Banderas no cinema.

“Lembro-me perfeitamente de entrar naquele trem para Madri”, recorda agora. “Chamava-se Costa del Sol, e a viagem durou aproximadamente 11 horas, era muito lento. Lembro-me de meus amigos na estação de trem de Málaga, dos meus pais e do meu irmão. Lembro que o trem começou a avançar e vi como aquelas pessoas ficavam para trás... Então pensei: ‘Quando voltar aqui, serei outro. O que eu quero ser. E isso aconteceu”.

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